domingo, 17 de novembro de 2013

Paixões Dominantes.

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 O pensador de Auguste Rodin, representação clássica de um homem imerso em pensamentos.
Paixões dominantes.

"... paixão significa, em seu sentido originário, aquilo que vem de fora e nos toma".

Quando ouvimos falar em paixões dominantes, logo pensamos em seres apaixonados, em paixões que tomam inteiramente nossas vidas, tornando-se o foco principal de nossa existência. Pensamos em grandes e envolventes relacionamentos, em histórias das grandes paixões humanas, que são narradas nos livros e filmes.

Em filosofia clínica, Paixões Dominantes é um dos tópicos da Estrutura de Pensamento, que envolve não somente a ideia comum de paixão, mas sua ideia originária.
Vinda do termo grego pathos, assim como a palavra patologia, a palavra paixão significa, em seu sentido originário, aquilo que vem de fora e nos toma.

A origem comum entre patologia e paixão nos faz pensar: o que há em comum entre elas?

Do sentido originário, o comum está no fato de sermos tomados por elas de modo que tal que possuem a capacidade de dominar nosso existir, de sermos envolvidos a ponto de nossas ações serem determinadas, muitas vezes, por elas.

Ao mesmo tempo em que são vistas como capazes de gerar maravilhas na história da humanidade, as paixões e as patologias também podem ser geradoras de muito sofrimento, de destruição, de guerras. Não são, portanto, boas ou más em si. Apenas são um dado possível em nosso existir.

Há quem viva por uma única grande paixão, há quem tenha várias paixões na vida, e há também aqueles que jamais se apaixonaram ou, ainda, os que estiveram por alguns momentos apaixonados, mas vivem a maior parte de suas vidas sem paixões. Apesar de algumas pessoas defenderem que as grandes paixões são necessárias para a vida, é possível que alguém viva muito bem sem elas, dada a diversidade de nossas necessidades. Como isso se dá para você, leitor?

O interessante nas paixões é o fato de que não são os objetos geradores das paixões a questão, mas o efeito provocado em nós. Por exemplo, você já esteve apaixonado por alguém a ponto de suas ações serem em função dessa pessoa? Não foi a pessoa que provocou essa reação em você, mas a afetação, a paixão que lhe moveu. Já esteve apaixonado por uma ideia, por um projeto? Não foi a existência da ideia que lhe determinou as movimentações, mas o quanto você foi afetado ou não por essa ideia.

Apaixonado por repulsa

Outro dado interessante de se observar é que nem sempre o "estar apaixonado" significa uma espécie de encantamento ou um desejo de realização. Podemos ser afetados por ideias que não desejamos, ou projetos que execramos, ou por pessoas que nos causam repulsa, e ainda assim, estarmos "apaixonados". Ou seja, as afetações nos tomam de modo tal que, ainda que não desejemos que execremos que haja repulsa, somos movidos por nossas paixões.

No tópico Paixões Dominantes, em filosofia clínica, o ponto a ser observado é a frequência com que uma ideia domina nossos pensamentos, sentimentos e ações. Por exemplo, alguém que pense em futebol ou política, ou qualquer outro assunto, com muita frequência, poderá ter tal assunto como Paixão Dominante; alguém que pense em outro alguém com muita frequência, poderá ter essa pessoa como Paixão Dominante; alguém que se preocupe com uma questão frequentemente, poderá tê-la como Paixão Dominante, e assim sucessivamente. Você tem Paixões Dominantes? Quais são elas?

Ter uma Paixão Dominante não é, em princípio, algo bom ou ruim. Por exemplo, o sujeito que pensa em futebol o dia inteiro, que traz o futebol para a conversa sempre que possível, pode ter isso como uma característica, e ela em nada atrapalhar ou auxiliar sua existência.
Outro sujeito, que tenha a mesma característica, pode dar peso tal a ela que se torna preso à sua Paixão Dominante, não se permitindo pensar, sentir e fazer outras coisas que possam ser necessárias a ele. Outro, ainda, pode unir sua Paixão Dominante a uma busca, ou a um contexto favorável, e encontrar nela a forma para impulsionar suas realizações. Ou seja, é preciso observar o peso, o papel e as interações das Paixões Dominantes com os outros elementos da vida de cada um. Qual é o peso de suas Paixões Dominantes, se você as tiver? De que maneira a presença ou ausência de tais Paixões interfere em seu cotidiano? O que você pensa, faz, sente em função dessa Paixão Dominante?

Em casos extremos, uma Paixão Dominante pode se tornar um grande problema. Por exemplo, se a pessoa tem como Paixões Dominantes ideias extremamente pessimistas - não me refiro aqui a dados de realidade observáveis, que indiquem a possibilidade das coisas não darem certo; refiro-me a ideias sem um fundamento concreto, que habitam os pensamentos da pessoa - suas ações poderão ser definidas por tal pessimismo, impedindo a realização de muitos de seus projetos.

Um medo, como Paixão Dominante, poderá, dependendo de seu peso, seu papel e suas interações, impedir a movimentação existencial da pessoa, levando-a, inclusive, a estados de pânico. Observe que, ainda que o medo tenha uma função importante em nosso existir, tê-lo como Paixão Dominante poderá ser um problema. Ressalto aqui que não se trata de apontar medo, pessimismo, ou quaisquer outras características como ruins, apenas indicar que, dependendo do peso, do papel e das interações com o todo da existência de cada um de nós, o impacto de uma Paixão Dominante poderá ser um fator fundamental em nosso modo de ser, sentir, pensar e agir.

Como uma Paixão Dominante se origina? Não há como saber sem observar a historicidade de cada um. Há Paixões Dominantes que se originam no contexto de nascimento, no convívio familiar, no desenvolvimento de uma atividade. Outras são originadas por agendamentos, ou seja, por coisas que nos foram ditas e que incorporamos. Outras possuem origem na junção de outros dados, tais como, por exemplo, pré-juízos, emoções, buscas, etc. Você consegue identificar a origem de suas Paixões Dominantes, se as tiver?

Como lidar com as Paixões Dominantes é a grande questão e, como tudo em Filosofia Clínica, não há uma resposta única para fazê-lo. É preciso, antes de qualquer coisa, compreender a gênese, o peso, o papel e as interações de uma Paixão Dominante com os demais elementos da existência e, diante do quadro apresentado, encontrar as melhores formas para lidar com elas. Seja evidenciando, diminuindo o peso, impulsionando buscas, provocando cautela, ou qualquer outro caminho a ser trilhado, o importante é que a forma de lidar seja compatível com suas necessidades e possibilidades, assim como com as necessidades e possibilidades do mundo a sua volta.
Monica Aiub
é Filósofa Clínica e Mestre em Filosofia da Mente (UFSCAR-www2.uol.com.br

Para saber mais:
AIUB, M. Como ler a Filosofia Clínica: Prática da autonomia de pensamento. São Paulo: Paulus, 2010.
_____. Para entender Filosofia Clínica: O apaixonante exercício do filosofar. Rio de Janeiro: WAK, 2004.

Vícios e virtudes, uma escolha.

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"Segundo Aristóteles, o homem que age de acordo com o princípio intelectivo vai solidificando o hábito de agir sempre de modo correto sem pender para os excessos ou as faltas que, segundo ele, são os vícios. Esse se mantém firme no justo meio (meio-termo)".

Aristóteles conceitua as virtudes, dividindo-as em duas: as intelectuais e as morais. A primeira nasce e progride graças aos resultados da educação. Portanto, leva tempo e demanda experiência; enquanto a segunda, é o resultado do hábito (ethos), que imprime em nós capacidade de praticar atos justos.
Para o filósofo, nosso caráter é formado a partir da repetição dos atos progressivos por meio do hábito, pois somos capazes de praticar bem aqueles atos que já fizemos antes, e eles podem ser aperfeiçoados tanto para melhor ou para pior. Com o hábito, adquirimos as virtudes morais e nos tornamos virtuosos pelo exercício, assim como os homens tornam-se justos praticando a justiça.

São as disposições viciosas ou virtuosas que constituem um caráter. Somos todos responsáveis por nossos atos, assim como também pelos nossos vícios. Somente aqueles indivíduos que têm suas atividades conforme a virtude se tornará virtuoso e, assim, atingem sua finalidade humana, sendo que o fim humano consiste, portanto, na busca da sabedoria.

O bem maior realizável para o homem é aperfeiçoar-se enquanto homem.

A infelicidade humana advém da ausência de virtude, pois aquele que pratica atos injustos não alcançará seu objetivo final por tender sempre para os pontos extremos (vícios), ficando além do meio-termo que é uma virtude.

Segundo Aristóteles, o homem que age de acordo com o princípio intelectivo vai solidificando o hábito de agir sempre de modo correto sem pender para os excessos ou as faltas que, segundo ele, são os vícios. Esse se mantém firme no justo meio (meio-termo). A virtude moral é uma virtude ética adquirida pelo hábito. A educação é o modo correto de adquiri-lo, daí a necessidade de praticar ações conforme a virtude e por escolha voluntária por toda a vida e não somente em alguns momentos.

Somente aquele que pratica atos voluntários age justamente, pois o homem virtuoso deve agir por escolha e de modo voluntário. Aquele que age de acordo com o princípio intelectual, cumpre por meio de escolhas que são traduzidas em ações. Somente a escolha está em nosso poder e por ser uma escolha somos os responsáveis pelas consequências.

Segundo Aristóteles, desejamos sempre aquilo que está ao nosso alcance. Portanto, somos responsáveis por praticar tanto os atos nobres como os atos vis. A virtude moral é um meio-termo entre dois vícios que envolvem excesso e a deficiência. A escolha está ligada à virtude. Assim, podemos escolher o que iremos nos tornar. E para que nos tornemos bons devemos desde o início praticar o Bem. Do mesmo modo quando decidimos mal, tal ato será mau, pois o que dirige a escolha é o caráter individual do sujeito que põe em prática tal ato que pode ser bom ou mau.
Por Samanta Obadia
www2.uol.com.br

           

Ética e Vício.


 
Ética e vício

O conceito de vício é um conceito extremamente mal entendido em nossa sociedade. O conceito clássico de vício teve suas bases lançadas por Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, sendo desenvolvido no livro iota da Metafísica. Segundo Aristóteles, os atos humanos, pela repetição, criam em nós uma espécie de segunda natureza, mediante a qual nós realizamos determinadas coisas sem esforço notável da vontade.

A isso Aristóteles chamou de hábito. Assim, por exemplo, quem durante anos se acostumou a acordar cedo da manhã, adquiriu este hábito e já não necessita mais fazer violência contra a própria vontade para agir desse modo. 

Os hábitos humanos, em geral, são neutros, mas podem adquirir conotação moral, determinada pela finalidade com a qual são praticados. Os hábitos cuja conotação moral é boa, Aristóteles os chamou de virtude, sendo que seu contrário, isto é, os hábitos cuja conotação moral é negativa, o estagirita os classificou na lista dos vícios.

Coragem, temperança, liberalidade, prudência, gentileza, são, entre outros, exemplos de virtudes para Aristóteles, pois quando o homem habitua-se, pelo exercício contínuo, a agir dessa forma, já o faz quase naturalmente, sem esforço notável da vontade. 

Em contrapartida, a covardia, a insensibilidade, a avareza, a moleza e a indiferença são típicos exemplos vícios, segundo a conceituação da ética clássica: o homem vicioso pratica esses atos reprováveis sem fazer esforço nenhum para tanto. Resumindo: os atos humanos, pela repetição, transforma-se em hábitos, que podem elevar-se nas virtudes ou degenerar-se nos vícios.

A dependência química em uma determinada substância, ou o hábito de consumir determinado produto não é, por si mesmo, um vício. O que determina a moralidade dos hábitos é sua conotação moral e não a frequência de sua repetição ou a necessidade química ou psicológica por ela causada. Um portador de câncer depende quimicamente de muitas substâncias e não pode ser acusado de ser “viciado” nelas. Um soldado que, durante uma guerra, precisou tomar morfina e, terminada a guerra, já não consegue mais largar a substância, está na mesma situação: é absurdo acusá-lo de ser um “viciado”. A palavra vício tem, sempre, uma conotação moral negativa e não poder ser usada indiscriminadamente. 

Alguém que fuma diariamente ou consuma bebidas alcoólicas com certa frequência (sem o intuito consciente e deliberado de obliterar a razão), não é viciado nisto. Um hábito não é necessariamente um vício. Os vícios são intrinsecamente maus, pois têm relação com a moralidade dos atos humanos, determinados pela sua finalidade. Também o causar mal à própria saúde não pode ser critério para determinar virtude ou vício, desde que esse mal não seja desejado consciente e deliberadamente. 

Os fumantes, normalmente, não fumam com intuito de prejudicar a própria saúde, mas fumam por outros motivos secundários: a finalidade do fumante ao acender seu cigarro não é causar em si um câncer de pulmão, motivo pelo qual o hábito de fumar não pode ser considerado um vício, segundo o conceito clássico.

O conceito que normalmente observamos as pessoas empregarem à palavra vício é uma deturpação do seu verdadeiro sentido. A consequência trágica disso é o embotamento do senso moral das pessoas, que são levadas por essa tendência politicamente correta de considerar certos hábitos neutros como negativos. Assim, é normal um antitabagista militante sentir-se orgulhoso de sua própria opinião infundada, sendo que o tabagismo não é um vício, mas o orgulho vão é um defeito grave de caráter. 

Em outras postagens, pretendo desenvolver mais o tema, exemplificando melhor e argumentando em favor da ética clássica, baseada na finalidade dos atos e não em convenções arbitrárias coordenadas pela mídia, ou por campanhas de massificação promovidas pelos governos.

Para terminar conto uma anedota que ilustra o tema, atribuída a Churchill. Conta-se que o General Montgomery, grande líder militar inglês, um dos principais generais aliados durante a Segunda Guerra Mundial, estava sendo homenageado pela brilhante vitória sobre o Marechal Rommel, da Alemanha nazista, na histórica batalha entre as divisões blindadas nos desertos africanos. Quando usou da palavra, Montgomery teria dito:

- Eu não fumo, não bebo, e sou herói!

Churchill, com o fino senso de humor que lhe era tão peculiar, ouviu o discurso e retrucou, resmungando da poltrona:

- Eu fumo, bebo, e sou chefe dele! (Churchill fumava um charuto atrás do outro e, conta-se, tomava meia garrafa de uísque por dia)
alemdoordinario.blogspot.com.br           

sábado, 16 de novembro de 2013

Meu amigo, minha vida.


Meu amigo, minha vida.

Nada na vida é tão bom do que ter pessoas com quem se pode contar. Aquelas que sempre que a gente precisar vão estar por perto e com certeza irão ter aquela palavrinha de conforto.
Temos nossos pais é claro, mas existem outras pessoas que, não sei,
parece ser mais fácil de compartilhar alguns assuntos, alguns momentos.
Essas pessoas são o que muitos dizem ser a família que nos permitiram escolher, ou seja, os amigos.

São com eles que aprendemos grandes lições, conquistamos muitos caminhos, enfrentamos inúmeros desafios, criamos coragem, começamos etapas na nossa vida. São eles que estão por perto em determinados momentos onde ninguém mais poderia estar a não ser eles.

Com os amigos, superamos barreiras, aprendemos a amar de uma forma diferente, de querer bem e estar bem. Amigos são pessoas maravilhosas que por mais que apareçam os problemas, lá estão eles conosco, junto, passando por cima de tudo.

É lógico que nem todos os amigos são assim, afinal de contas, existem amigos e amigos. Tem aqueles de determinadas horas, ocasiões, dias, épocas, enfim, existem vários tipos de amigos. Mas o que cito aqui é o amigo você.

Aquele com quem me sinto bem quando esta por perto aquele que me passa segurança apesar de às vezes não parecer. Aquele que por mais que haja brigas, sempre fica do lado quando precisa. Aquele que de alguma forma não dá pra esquecer de jeito nenhum. Aquele que esta junto nas horas mais importantes da minha vida.

Aquele com quem, a cada dia que passa, aprendo mais e me sinto muito melhor. Aquele com quem quero estar para o resto de meus dias, mesmo que um dia eu vá para longe ou vice versa. Aquele que sempre que acontece algo de novo, quero que seja a primeira pessoa, a saber.

Aquele que, por mais que eu viva mil anos, jamais sairá da minha mente e principalmente do meu coração. Aquele que eu gosto que eu admire que eu confie que eu ajudo quando precisa, que me ajuda quando preciso que eu brigo quando a ou não motivos que me abriga.

Aquele de quem eu nunca, nunquinha, vou esquecer. Aquele que não importa a situação ou a hora em que me encontre, sabe que sempre vai poder contar comigo, para o que der e vier. Aquele que eu simplesmente amo pelo fato de já fazer parte da minha vida e por me fazer ter vontade de continuar a viver, por mais que a vida pra mim já não signifique nada em alguns instantes, pois com você, a vida tem sentido e como já diria Shakespeare, me faz ver que eu tenho sentido diante da vida.

Não quero te perder, pois amigo como você, com certeza me sinto bem quando esta por perto aquele que me passa segurança apesar de às vezes não parecer. Aquele que por mais que haja brigas, sempre fica do lado quando precisa. Aquele que de alguma forma não dá pra esquecer de jeito nenhum. Aquele que esta junto nas horas mais importantes da minha vida.

Aquele com quem, a cada dia que passa, aprendo mais e me sinto muito melhor. Aquele com quem quero estar para o resto de meus dias, mesmo que um dia eu vá para longe ou vice versa. Aquele que sempre que acontece algo de novo, quero que seja a primeira pessoa, a saber.
Aquele que, por mais que eu viva mil anos, jamais sairá da minha mente e principalmente do meu coração. Aquele que eu gosto que eu admiro que eu confio, que eu ajudo quando precisa, que eu brigo quando a ou não motivos.

Não quero te perder, pois amigo como você, com certeza não encontrarei ao atravessar a rua. Um amigo que me faz ver tudo e todos de todas as formas. Que me faz enxergar o que há de bom e que abre meus olhos para que eu não cometa delitos. Um amigo assim não é todo mundo que tem.
Deus te pôs no meu caminho e não foi por acaso. E agradeço sempre a Ele por isso, pela chance que me deu ao fazer com que você atravessasse meu destino, pois agora que você pisou nele, tenho certeza que tão logo não sairá e que ainda temos muito que viver juntos.


Amigo é como bichinho doente, ou cuidamos com carinho, ou perdemos para sempre. E prometo que tentarei ao máximo fazer com que isso não aconteça, mas se um dia acontecer, não se apavore, estarei do teu lado e em pouco tempo estaremos juntos novamente, e a cada dia minha existência terá mais valor com você a meu lado, pode estar certo disso.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Posso ser amigo de um ateu?

Debater é uma arte essencial para aqueles que lidam com questões acadêmicas. Prefiro mil vezes um debate que não chegue a uma conclusão a uma conclusão que dispense um debate. Conclusões que não foram exaustivamente discutidas são como soluções vazias para um problema que nem foi sistematizado. Neste processo, é muito importante que haja espaço para boas discussões. Veja, eu disse “boas” discussões.

É uma pena que certos comportamentos belicosos tenham dado à palavra discutir um novo sentido semântico que não tinha nada a ver com aquele original de quando o termo foi criado. Só para que se saiba “discutir” vem do latim discutere (dis, separação + quatere, quebrar). O sentido original era quebrar, sacudir, abalar. 

Era isso o que os médicos romanos faziam com as plantas para produzir um medicamento. Eles quebravam e sacudiam as raízes para separar a terra e verificar as que eram ou não fortes o bastante para servir de remédio. Em virtude dessa prática, discutir também adquiriu um sentido adicional de “curar”.

Originalmente, portanto, “discutir” seria pegar um assunto e agitá-lo, até ele se dividir em partes menores e se desprender daquelas que seriam periféricas. Assim, ele fica mais fácil de ser digerido, pois não podemos compreender tudo de uma só vez.

É por isso que, em qualquer discussão, todos os envolvidos parecem ter sempre um pouco de razão: cada um só vê a parte que lhe interessa, a do outro é sempre a terra a ser desprendida ou o pedaço de raiz que não serve para nada. O importante, portanto, numa discussão, é superar a tendência partidarista e usar as partes “sacudidas” para se alcançar, senão o consenso, pelo menos o respeito por aquele que discorda de nossa opinião.

Seria a busca por esse respeito uma utopia? Bem, somando a ideia de que “a esperança é a última que morre” ao fato de que sou um homem de fé, ainda acredito que é possível discordar com respeito. E vou mais além: é possível ser amigo de alguém de quem você discorda profundamente? Também creio que sim.

Veja o que aconteceu comigo: perdi a chance de falar num fórum na Unicamp e isso me deixou muito chateado, muito mesmo! Não concordei com a postura assumida por alguns professores. Mas vejam o presente que ganhei de Deus (isso mesmo, “de Deus”; lembre-se de que quem escreve acredita nEle): ganhei três novos amigos, uma antropóloga canadense, um matemático e um físico – esses dois últimos se empenharam ativamente pelo cancelamento do fórum. Um deles é o físico Leandro Tessler, cujo nome está circulando como elétrons nas redes sociais. Espero não ter errado na comparação, mas antes isso que dizer “circulando como azeitona na boca de um velho” (rs).

Mas, falando sério, como pode existir amizade numa situação dessas? Podem um crente e um ateu se tornarem amigos? Ora, se o que eu acredito for verdade, eu e o Leandro somos filhos de um mesmo Deus. Se o que ele diz for verdade, também somos todos parentes por ter uma ancestralidade comum. Logo, no frigir dos ovos, independentemente do modelo adotado, somos todos irmãos. Então, por que se comportar como se fôssemos um bando de porcos-espinhos numa noite de inverno? Devemos ser mais evoluídos do que isso!

Dá, sim, meus amigos, para discordar com classe. Dizer que o professor Leandro é academicamente desonesto não ajuda na argumentação. Pelo contrário, é tão ofensivo quanto supor que eu esteja sorrateiramente entrando na Unicamp, como um lobo disfarçado de ovelha para convencer os alunos da “perigosa” doutrina do criacionismo. Noutras palavras: eu também seria desonesto!

Ambos, ele e eu, somos muito honestos com nossa linha de pesquisa, mesmo que cheguemos a conclusões diferentes sobre algumas coisas da vida. O professor Leandro foi muito cortês no almoço que tivemos e não vi motivos para duvidar da idoneidade dele. Ao contrário do que alguns supõem do caráter de um ateu, ele não pediu “criancinhas ao molho pardo” e eu também não pedi alfafas.

Ele não é canibal e eu não sou burro. Somos dois pensadores tentando entender a vida e o sentido de nossa existência. Temos todas as respostas? É claro que não! Mas as estamos buscando. Cada um a seu modo. Ele me deseja um “bom culto” quando digo que vou para a igreja. E eu digo que “orarei por ele”. Não há ironias, nem desaforos, apenas respeito um pelo outro, sem desconsiderar os pontos nos quais discordamos.

Como cristão, eu tenho de entender que não sou dono da verdade e não sei tudo sobre Deus. E como dizia uma velha canção católica: “às vezes quem duvida e faz perguntas é muito mais honesto do que eu”. Deus é menos ofendido pela sinceridade de um ateu do que pela hipocrisia de um santo. É claro que meu desejo é que um dia o Leandro acredite em Deus.

E se isso não ocorrer? Que me importa? Pela evolução ou pela criação ele continua sendo meu irmão e merece meu respeito. Devemos defender com paixão aquilo no qual acreditamos, mas alguns preferem defender com “raiva” e isso não é nada bom!

(Rodrigo Silva é graduado em teologia e filosofia, doutor em teologia e doutorando em arqueologia clássica pela USP)


Nota: O texto acima foi publicado simultaneamente no blog Cultura Científica, de Leandro Tessler.
criacionismo.com.br

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Chefe é chefe – uma reflexão fabulosa!

Chefe é chefe – uma reflexão fabulosa!

Um dos fundadores da sociologia, o economista alemão Max Weber, conceitua o poder como sendo toda a probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, obstante qualquer resistência e independentemente do fundamento dessa probabilidade.

Um dos exemplos mais simplórios e também um dos mais anacrônicos do exercício do poder está manifestado no membro administrativo de algumas corporações, com grau hierárquico executivo identificado simplesmente como “o chefe”.

“O chefe” é o personagem muitas vezes caricato que, encarnando o detentor de alguma forma de poder, tem muitas vezes seu grau de hierarquia oficializado por títulos sugestivos, tais como coordenador, gerente, diretor, supervisor, etc.

Independentemente do título, ser chefe é ter acesso privilegiado às informações e às decisões, e também a outros instrumentos administrativos que viabilizam o exercício desse poder, tais como a promoção e a demissão de seus subordinados, por exemplo.

No Brasil das corporações anacrônicas é comum se ouvir nos bastidores:

- O chefe tem sempre razão!
- Manda quem pode – e obedece quem tem juízo!

E por aí vai.

A infelicidade de tal prática, onde chefe é chefe e subordinado é subordinado (sendo a diferença muito nítida também no montante dos salários) geralmente está acompanhada pelo autoritarismo de uma parte e a subserviência da outra.

Talvez uma herança atávica do feudalismo, o exercício do micro poder diário das chefias nos convida a um questionamento filosófico também sobre o exercício diário da ética, que se traduz, na interpretação de muitos filósofos modernos, como sendo simplesmente o exercício da moral.

Muitos chefes possuem um poder circunstancial. Mandam mas não lideram.

E talvez por falta dessa mesma liderança ameacem, intimidem e se transmigrem amiúde na versão tragicômica de pequenos tiranos.

Em síntese: um rato que ruge.

E o que é pior, é que muitos desses chefes tiranos brotaram do plano comum de seus subordinados.
Quando então promovidos simplesmente “mudam de lado”.

Talvez porque na maioria das corporações onde exista um chefe tirano, também existam subordinados que trabalhem direito apenas quando contam com uma “severa” supervisão.

Flagra-se, portanto, a carência de moral, tanto de uma parte como de outra.

Qual é a solução?

Melhorando-se o subordinado, transformando-o em colaborador se melhoraria também a chefia?

Ou trocando-se um chefe por um verdadeiro líder, a coisa toda mudaria de figura?

Será?
Ou é do indivíduo que temos de falar – antes de mais nada?

Para concluir este artigo e suscitar essa fabulosa reflexão – quero apresentar aqui minha releitura recorrente de uma das “Fábulas Fabulosas” de Millôr Fernandes:

“O rato que tem medo”

A história é bem simples. Um rato que depois de muito sofrer pede para um grande mágico transformá-lo em um gato. Não suportava mais ser perseguido e intimidado.

Nem bem foi transformado, ironicamente, passou a perseguir todos os ratos que encontrou. Porém, com inédita crueldade e efetiva precisão. Afinal conhecia com propriedade o modus operandi destrutivo dos ratos.

Viveu satisfeito até encontrar um cão – que então o persegue.

Implora mais uma vez para que mágico o transforme, dessa vez em um cão, e assim, por efeito da magia vai subindo sucessivamente a escala zoológica até chegar na iminência de ser transformado em ser humano.

Nessa passagem, o mágico, numa peripécia o transforma novamente num rato.

- Mas por que voltei a ser rato?  – pergunta o animal, transbordando frustração.

É com a sabedoria típica das fábulas que o Grande Mágico responde:

- De que adiantaria para o mundo mais um Homem com “coração de rato”!
Por Mustafá Ali Kanso em 22.04.2013 as 1:53
hypescience.com.

DO TRIGO ÀS CEREJEIRAS – UMA RÁPIDA REFLEXÃO




DO TRIGO ÀS CEREJEIRAS – UMA RÁPIDA REFLEXÃO

Tenho defendido a importância da educação científica no Brasil, principalmente no que tange a busca por soluções determinantes, tais como a erradicação da miséria, das doenças endêmicas, bem como a defesa e conservação do ambiente natural, só para citar aqui alguns poucos exemplos.

Entendo que é através do conhecimento científico e tecnológico que alternativas serão encontradas para se realizar o tão propalado crescimento sustentável, bem como, a extensão dos benefícios do progresso tecnológico para toda a população.
Busco demonstrar que o analfabetismo científico, a exemplo de todo o analfabetismo, é historicamente destrutivo, à medida que põe por terra todo o esforço para a melhoria da qualidade de vida de todos nós.

Entre os casos mais gritantes, podemos enumerar a título de exemplificação, no item “depredação ambiental”:
poluição de mananciais;
consumismo desenfreado;
descarte irregular de lixo;
 instalação de esgotos clandestinos,
desperdício de alimentos e de água;
exaustão de recursos naturais;
etc.

Coisa que uma população educada cientificamente não faria.
No entanto, não sou ingênuo a ponto de pensar que só ciência e tecnologia seriam suficientes.

Esse processo passa pela famosa educação de base: uma educação que contemple todos os aspectos do indivíduo, incluindo aí a concepção de uma conduta ética voltada ao bem comum.

Por outro lado, sabemos que a maioria de nossa população luta diariamente pelo simples direito de sobreviver.

É terrível admitir essa dura realidade, mas cerca de quarenta milhões de brasileiros não conseguem ter sequer três refeições por dia.
E se falarmos então sobre o acesso à água tratada, ao saneamento básico, à energia elétrica ou à saúde — ou a já citada educação de base — o quadro é simplesmente desesperador.

Isso em pleno século XXI.
Como discutiremos nossos ideais tão elevados se a realidade das diferenças sociais no Brasil é ainda uma ferida aberta?

Percebo a indiferença de alguns, que até se justificam, pois tem a clara convicção de que os mais pobres estão nessa situação por que simplesmente não querem trabalhar.
Será?

Tenho viajado muito por esse Brasil — e o que mais tenho visto, desde as primeiras horas da manhã, são terminais de trens, metrôs, ônibus, etc. lotados.  Apinhados. Um mar de pessoas embarcando nessas conduções.

Quem serão eles? Seriam esses os mais ricos do Brasil?
E para onde estarão indo, assim tão cedo? Para a praia, para o clube?
Ironia à parte, através dos dados da ONU pode-se constatar que a jornada de trabalho brasileira está entre as maiores do mundo, ao mesmo tempo, que o respectivo salário figura entre os menores. Por quê?

Outro dado alarmante:
O trabalhador brasileiro está entre os menos nutridos do mundo.

Abrindo um parêntesis:
É evidente que existe gente desonesta, preguiçosa e aproveitadora.
Mas isso não é exclusividade dos mais pobres.
Eu quero chamar a atenção a esse processo de reflexão, que cada um deve realizar dentro de si mesmo, quando condena a todos pelo mau exemplo de alguns.

Fechando o parêntesis:
Cada vez que falo em educação científica me recordo que a miséria é ainda a principal causa mortis das crianças do meu país — simplesmente não me conformo.
Como prodigalizar às nossas crianças o pão do espírito — que é a educação — se o pão do corpo lhe é ainda negado?

— Lembrando sempre que o trigo antes de virar pão precisa ser cultivado.
Também é uma saída fácil atribuir a exclusiva culpa e responsabilidade ao governo, afinal eu pago meus impostos para que esses problemas sejam resolvidos.
Todo o mês é descontado 27,5% do meu salário. Isso sem contar IRPF, IPTU, IPVA, etc. etc. etc. (e mais os impostos embutidos em todos os serviços e produtos que consumo).

Qual é a parte que me cabe nesse latifúndio?
Entra governo, sai governo e o quadro desesperador persiste.
E mesmo ficando indignado, mesmo indo às ruas protestar, mesmo votando consciente, mesmo cumprindo com todas as minhas obrigações sociais, isso não tem atenuado o sofrimento da maioria da nossa população.
Como dizia Betinho: – Quem tem fome tem pressa.
Então, qual é a solução?

Um dos caminhos que eu encontrei é o de unir minha força de trabalho ao de outras pessoas que, assim como eu, resolveram fazer alguma coisa e não apenas reclamar.
[Sim! Existem muitas pessoas assim no Brasil. Inclusive em sua cidade, basta procurar].

São voluntários que doam algumas horas de seu mês para trabalhar pelos mais necessitados. Temos médicos, dentistas, professores, engenheiros, operários, donas de casa, e tantos outros cidadãos, todos unidos em torno desse mesmo ideal.
Tenho encontrado uma chance de fazer parte da solução, e, sinceramente acredito que só a sociedade civil organizada em uma democracia tem essa liberdade.
Evidentemente uma coisa não exclui a outra.

Continuo lutando por meus ideais, seja nas urnas, seja participando de protestos nas ruas, seja no exercício pleno de minhas funções sociais como profissional e como cidadão.

Mas entendo que posso fazer mais um pouco, enquanto estiver por aqui.
Algo que tenha transcendência.

Mesmo que seja construir um pequeno regato perante o oceano da eternidade.
Mas como diz um grande amigo que atua no voluntariado há mais de vinte anos.
É como plantar uma cerejeira.

É bem provável que você nunca se sentará à sua sombra ou colherá de seus frutos.
É um simples gesto de generosidade às gerações futuras.
Por Mustafá Ali Kanso em 11.11.2013 as 0:30
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